• Rafael Sant'Ana

Playoffs da NBA retornam hoje, mas a luta contra o racismo continua

Após conversas entre jogadores, donos e liga, ficou decidido que os jogos continuam, mas as franquias precisarão ser mais participativas contra a violência policial e o racismo sistêmico no país.


Joe Murphy/NBAE via Getty Images

Neste sábado (29), a pós-temporada da NBA (National Basketball Association) voltará a ser realizada, com três jogos programados. O Milwaukee Bucks enfrenta o Orlando Magic no jogo 5 da série, precisando de apenas uma vitória para passar de fase. Em seguida, o Houston Rockets busca voltar à liderança do confronto contra o OKC Thunder, depois de deixar o time de Chris Paul empatar a série por 2 a 2. Por último, o Los Angeles Lakers espera eliminar o Portland Trail Blazers, já que Damian Lillard voltou para Portland para tratar a lesão no joelho direito.


A decisão de dar continuidade à temporada veio depois de muita conversa entre os jogadores e os mandatários dos times e da liga, e pelo que foi relatado, não foi algo fácil. Lembrando que o boicote aos jogos começou por conta de uma abordagem policial a Jacob Blake, ocorrida em Kenosha, Wisconsin, em que o homem foi alvejado sete vezes nas costas.


O Bucks foi o primeiro time a aderir ao boicote, seguido pelas outras equipes que jogariam na quarta (26). Naquela noite, uma reunião foi organizada para discutir os próximos passos. Lakers e Clippers desejavam encerrar a temporada, mas acabaram recuando e decidiram apoiar a volta dos jogos.


Ânimos aflorados


Segundo informações dos insiders americanos, Lebron James se retirou da reunião em dado momento, pois não enxergava um planejamento concreto em relação às medidas que poderiam ser tomadas em prol da luta dos jogadores. Também foi noticiado que Patrick Beverley, armador dos Clippers, teve um momento mais tenso com Michele Roberts, chefe da NBPA (Associação dos Jogadores da Liga Nacional). Há muitas informações conflitantes sobre o caso, mas segundo o próprio jogador, essa já é uma questão resolvida. Diante de tanta confusão, pelo menos tivemos algumas conquistas entre a reunião da noite de quarta e o dia de ontem.


O armador de OKC e presidente da associação de jogadores, Chris Paul, conseguiu registrar todos os jogadores de sua equipe para votar nas eleições presidenciais que ocorrerão em novembro. Além disso, foi anunciado que todas as 30 arenas de times da NBA se tornarão polos eleitorais, algo importante para os atletas, que há algum tempo, reiteram a importância de votar para trazer mudança. Embora ainda falte muito para vermos modificações significativas nos Estados Unidos, esse já é um começo.


Vários técnicos emitiram opiniões e relatos sobre a atual situação do país nos últimos dias. Doc Rivers, técnico do Clippers, deu uma entrevista emocionado dizendo que os negros não são amados do mesmo jeito que amam sua pátria. Rick Carlisle, do Mavericks, afirmou que o caso Blake foi "apenas outro horrível soco no estômago". Envolvido em várias iniciativas na liga e em Dallas, ele conseguiu mudar protocolos policiais em abordagens na cidade, junto com o projeto Mães contra a brutalidade policial.


Participação de figuras importantes


Um detalhe que chamou a atenção durante as discussões entre jogadores e donos foi a participação ativa da lenda Michael Jordan, dono do Charlotte Hornets. Jordan não é exatamente a primeira pessoa a ser lembrada quando o assunto é engajamento político, mas dessa vez parece que o ex-jogador quer realmente fazer parte da mudança.


Recentemente, ele anunciou que sua marca doaria 100 milhões de dólares pelos próximos 10 anos para organizações que lutam contra o racismo, o que é uma quantidade considerável mesmo para um bilionário.


Quem não estava lá, mas teve sua voz ouvida foi o ex-presidente Barack Obama, que conversou com um grupo pequeno de jogadores que incluía Lebron e Chris Paul. O astro dos Lakers, inclusive, pediu conselhos a Obama sobre o que fazer com a temporada da NBA. O que o jogador ouviu foi para continuar jogando e maximizar a plataforma da liga para expor os problemas ocorridos em solo americano. A ideia de criar um comitê de ação foi discutida, talvez até com a participação do ex-presidente, mas por enquanto nada é certo.


Saul Loeb/AFP

É hora de mudar o status quo


O que não se pode negar é que os jogadores estão cansados de discursarem sobre as mesmas questões e tudo continuar igual. Isso não se limita a NBA. Nos últimos dias, pudemos ver manifestações iguais ou semelhantes na WNBA, na MLB e na NFL. Jogos e treinos cancelados, discursos emocionados sobre como o que aconteceu com Jacob Blake, Breanna Taylor, George Floyd e tantos outros poderia ter acontecido com eles ou com alguém da família...


No geral, é um sentimento de indignação. E de basta também. Os atletas das principais ligas americanas continuarão atuando ativamente por justiça social até alterações profundas no sistema acontecerem. Embora ter esperança pareça impossível numa hora dessas, eles continuarão unidos em busca de igualdade.