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OS CAMINHOS PARA O FIM DA HOMOFOBIA NOS ESPORTES.

Um esporte que começou a ser praticado em meados de 1830, o futebol é jogado há quase 200 anos. Por que será que em tanto tempo nenhum atleta profissional renomado se sentiu à vontade para assumir sua homossexualidade? Será que o esporte mais praticado no mundo é uma exceção à regra de nossa sociedade e não existe nenhum atleta homossexual?


O futebol é com toda certeza o esporte mais democrático do planeta, sendo praticado por pobres, ricos, negros, brancos, em locais desenvolvidos e outros em que o desenvolvimento é paupérrimo. Em pleno século XXI não temos notícias de um atleta de alto rendimento se assumindo homossexual, conquanto, no futebol feminino as atletas dão exemplo externando sua orientação sexual e apoiando causas e/ou pautas LGBTQIA+.

O STF em Junho de 2020 proferiu uma decisão polêmica e sem qualquer dúvida, totalmente acertada ao equiparar a “homotransfobia” ao racismo, que hoje prevê crimes de discriminação ou preconceito por “raça, cor, etnia, religião e procedência nacional”. Assim, mediante a omissão injustificada pelo Congresso Nacional em legislar em tal seara, o nosso Tribunal Maior corrigiu tal anomalia jurídica.


O Colegiado do Superior Tribunal Federal por 10 votos a 1 reconheceu que o crime de homofobia e transfobia enquadravam-se no artigo 20 da Lei 7.716/1989, que criminalizava o racismo. Um dos ministros do STF afirmou que os dados apresentados durante todo o processo demonstravam de maneira inequívoca a extrema vulnerabilidade que os grupos LGBTQIA+ ficam expostos diariamente.


A FIFA em 2019 editou seu Código Disciplinar, mais especificamente o artigo 13, que endureceu as penas para quem entoar cânticos ou praticar atos discriminatórios em razão de cor, crença, religião, gênero ou orientação sexual. A pena varia de suspensão da torcida ou outra que seja adequada ao caso concreto.


Um dos casos mais emblemáticos da Europa acerca de homofobia, ocorreu em 2009, quando o Maurizio Sarri, ex-técnico da Juventus de Turim foi suspenso por 2 jogos da Copa Itália por ter chamado o também técnico de futebol Roberto Mancini de “bicha”. Ainda no país tetracampeão mundial, temos outro exemplo, dessa vez o atleta Antônio Cassano deu a seguinte declaração: “homossexuais na seleção? Espero que não, mas isso é problema deles”. Logo após a repercussão negativa da sua fala, o jogador foi à mídia pedir desculpas por seu comportamento.


O STJD atuando em vanguarda enviou à CBF uma orientação contra atos “homotransfóbicos” nos estádios brasileiros. Se um número “considerável” de torcedores praticarem tais atos, seus clubes poderiam ser punidos com perda de pontos conforme regulamenta o CBJD. Em 26 de Agosto de 2019, uma partida de futebol foi paralisada após a torcida do Vasco entoar “time de veado” em direção aos torcedores do São Paulo.


Em um jogo disputado entre São Paulo e Palmeiras na Allianz Arena (estádio do Palmeiras), a torcida alviverde proferiu os seguintes cânticos “TODO VIADO DESSA TERRA É TRICOLOR” em direção à torcida do São Paulo. Entretanto, um torcedor palmeirense gay se sentiu ofendido com os gritos e foi em suas redes sociais falar sobre o tema. Além de solidariedade de vários torcedores, incluindo do seu próprio time, sofreu diversas ofensas e ameaças por ter se posicionado contra a homofobia nos estádios.


A Confederação Brasileira de Futebol tem buscado elaborar ações inclusivas do público LGBQIA+, enquanto, vários times brasileiros expressaram apoio ao combate da homofobia e transfobia no dia 17 de Maio conhecido como “Dia do Orgulho LGBTQIA+”.


Talvez sejam passos pequenos, mas de qualquer maneira estamos no caminho correto para a inclusão e a diversidade. Sem dúvidas, é um marco inicial para que todos os atletas possam exprimir sem quaisquer reprimendas sua orientação sexual e, assim, fazer do esporte um local que, por natureza, deveria ser inclusivo.


Enquanto o futebol não nos apresenta nenhum atleta assumidamente homossexual, outro esporte muito famoso no mundo que é o Futebol Americano nos apresentou um atleta que teve coragem para se posicionar acerca da sua orientação sexual.

O atleta em comento se chama Michael Sam e vale trazer uma breve explanação acerca da sua carreira atlética até chegar à National Football League que é a liga esportiva dos EUA e mais famosa no planeta relativa ao futebol americano.


Michael Alan Sam JR nascido em 7 de janeiro de 1990, na cidade de Galveston no estado do Texas e atuava como defensive end (posição de defesa no futebol americano). Iniciou sua carreira no High School Hitchcock (equivalente ao ensino fundamental no Brasil), por essa escola conquistou um lugar no First Team All-District e por seu desempenho excepcional foi convidado para diversas universidades renomadas nos Estados Unidos, tais como Arizona State University e Colorado State University.


O atleta optou jogar pela University Mizzouri (Mizzou) Tigers e jogou na Conferência Big 12 (atualmente a Universidade joga na SEC) que é da 1ª divisão da NCAA. Em seu primeiro ano na faculdade, Michael sackou o quarterback adversário por 3.5 vezes, registou 24 tackles e nisso estão inclusos 7 tackles que fez com os adversários perdessem jardas. Além do mais, forçou 2 fumbles, 1 interceptação e ainda bloqueou um chute, tudo isso como novato.


Em 2013, o defensor teve um ano espetacular, anotou 11.5 sacks e 19 tackles em que os jogadores do time adversário não avançaram no campo. Ele liderou a Conferência em ambas categoria, sendo nomeado como Co-defensor do ano ao lado de C.J Mosley (atleta do New York Jets e grande estrela da liga) e do primeiro time da conferência. Durante sua carreira no College, Mike acumulou 123 tackles (sendo 36 para perdas de jardas), 21 sacks, 6 fumbles forçados e 2 passes interceptados.


O atleta foi considerado pequeno para a posição de defensive end, entretanto, a sua carreira bem prolífica no College, o credenciava para uma escolha alta no draft (evento que os os técnicos escolhem jogadores para integrar os times da NFL), cogitado até mesmo para 3ª ou 4ª rodada (o evento possui 7 rodadas, normalmente cada time possui uma escolha para selecionar um atleta vindo da Universidade).


Seu desempenho no Combine (evento que os atletas treinam observados pelos técnicos da NFL) foi um pouco abaixo da média e até levava a crer que a expectativa em torno do jovem prospecto estava abalada. Após um mês desse evento, foi marcada nova sessão de treinamentos e dessa vez seu rendimento foi melhor e sua classificação variava de 12º a 25º melhor jogador da posição disponível para ingressar na NFL.


Ocorre que em 2013, o defensive end aposentado informou aos seus companheiros de equipe acerca de sua orientação sexual e todos o apoiaram, mesmo assim, o atleta ainda não se sentiu a vontade para falar com a imprensa acerca da sua homossexualidade. Entretanto, alguns dias antes do draft, o então prospecto deu uma entrevista ao programa “Outside the lines” e falou abertamente sobre o tema declarando: “SOU UM GAY ABERTAMENTE ORGULHOSO”. Antes de Sam nenhum outro atleta da NFL ou do futebol americano universitário havia se posicionado acerca de sua orientação sexual publicamente.


De acordo com a repercussão da entrevista, alguns executivos da NFL entraram em contato com a Sports Illustrated, uma conceituada revista esportiva americana, para informar que o atleta seria escolhido tardiamente ou nem seria escolhido por causa de suas falas. Tais afirmações repercutiram na mídia e levou que um diretor executivo da NFL se posicionasse sobre tais acusações, dizendo que qualquer time que anonimamente rebaixasse o atleta seria “covarde”.


De fato, o atleta que estava bem cotado para ser escolhido acabou sendo escolhido na 249º posição entre 256 possíveis no draft de 2014. Após ter sido o primeiro atleta gay assumido a ser draftado, o presidente americano Barack Obama o parabenizou dizendo que era um marco na história do esporte e da nação, mostrando que os gays americanos poderiam estar em quaisquer lugares que eles quisessem.


O time que o selecionou foi o St. Louis Rams (atual Los Angeles Rams), em Agosto de 2014 o atleta estreou pela franquia durante a pré-temporada contra o New Orleans Saints. Já no segundo jogo conseguiu seu primeiro sack como atleta profissional. O atleta em 4 jogos até teve um desempenho considerável como bom, entretanto, o time de Saint Louis optou por não levá-lo para a disputa da temporada.


Após o corte da equipe de St. Louis, o tradicional Dallas Cowboys o convidou para uma oportunidade de jogar pelo time do seu estado natal, mas, novamente, veio um corte e o atleta não integrou o elenco para a disputa da temporada. Sem espaço na NFL, o ex defensor ainda se aventurou na Canadian Football League, (uma espécie de futebol americano disputado no Canadá). Atuando pelo Montreal Allouets, se tornou o primeiro atleta gay assumido a jogar na Liga Canadense. Em agosto de 2015, Michael Sam anunciou sua aposentadoria do futebol profissional visando preservar sua saúde mental.


Apesar da curta carreira como atleta profissional, Michael Sam nos deixa um legado importantíssimo. A sua coragem e força de vontade para poder se abrir, falando sobre sua orientação sexual e suas convicções certamente vão inspirar outros atletas a seguirem o mesmo caminho. A empatia despertada por essa atitude irá refletir em vários jovens que ainda não se sentem a vontade, mas logo, poderão falar normalmente sobre as pautas LGBTQIA+.

Dessa forma é extremamente que possamos apoiar tais decisões e incentivar que mais atletas aproveitem sua voz e exposição para dar visibilidade e suporte para quem sente oprimido e discriminado. Jamais poderemos nos calar e aceitar que o esporte seja palco de retrocesso social, assim, a sociedade tem a necessidade de se manter engajada na luta pelos direitos civis do público LGBTQIA+.


Que o ato corajoso de Michael Sam ecoe para a eternidade e abra um espaço de discussão saudável e apoio aos discriminados. A esperança é que em breve, todos possam ser respeitados por sua opinião e sua orientação sexual.