• Daniela Germano - Criadora do GirlPowerNFL

O QUE FAZ UM QUARTERBACK SER UM QB CLUTCH

Ser um quarterback clutch não é para qualquer um ou será que é?


Primeiramente devemos esclarecer que o termo “clutch” serve para caracterizar um jogador que é capaz de alcançar o sucesso em um ponto de alta pressão em uma competição.


A característica de ser “clutch” nos esportes é controverso. Muitos estatísticos argumentam que não há evidências numéricas que justifiquem determinar que o jogador foi mais "clutch" que outros.


Embora seja notório que alguns jogadores possam ter um desempenho melhor em situações de pressão na competição do que outros, como sabemos que isso é porque eles são melhores em situações de alta pressão e não porque são apenas melhores em geral?


Em outras palavras, os estatísticos dizem que a percepção de clutch de Michael Jordan era apenas sua grandeza sendo mais exposta em situações de pressão, embora ele sempre  fosse  ótimo.


Existem pontos interessantes de ambas as posições. É difícil assistir jogadores como Tom Brady e LeBron James nos playoffs e pensar que eles não têm um desempenho superior quando estão sob pressão.


Talvez as estatísticas simplesmente ainda não sejam capazes de quantificar com precisão o desempenho elevado em situações de alta pressão, até porque se deveria criar uma fórmula em que a dificuldade do jogo fosse considerada, e sabemos que isso é quase sempre imprevisível no mundo dos esportes.


Porém você vai se perguntar: Então o que eu devo considerar para dizer que o jogador é clutch?


Pois bem, vamos tentar solucionar (ou complicar mais) o problema. Algumas análises específicas realizadas nos EUA chegaram a algumas conclusões.


Em 2014, Brian Burke criou uma métrica chamada Brian Burke’s Expected Points e basicamente ele define que:

"O valor de um jogo de futebol tradicionalmente é medido em jardas ganhas. Infelizmente, jardas são uma medida falha porque nem todas as jardas são iguais. Por exemplo, um ganho de 4 jardas na 3ª descida para 3 jardas totais é muito mais valioso do que um ganho de 4 jardas na 3ª descida para 8 jardas totais. Qualquer medida de sucesso deve considerar a situação de descida e distância."

Burke ainda considera que a posição no campo também é importante. As jardas ganhas perto da endzone são mais difíceis, apesar de mais chances de pontuar, e são mais valiosas do que as jardas ganhas no meio-campo. Jardas perdidas perto da própria linha de gol podem ser mais caras também para o time.


Em um estudo realizado com vários níveis de futebol americano, chegou-se a conclusão que quanto mais próximo maiores são as chances de pontuar, portanto, o outro time irá dificultar ao máximo o ataque, tornando assim o avanço das jardas mais relevantes para o jogo.


Mas isso é óbvio e você já sabe. Então vamos complicar as coisas um pouquinho.


Se somarmos todos os 'próximos pontos' marcados a favor e contra o time do ataque em jogos anteriores, podemos estimar a vantagem de pontos líquidos que um ataque pode esperar para qualquer situação de futebol.

Por exemplo nos próprios 20 pontos do ataque, somam +0,4 pontos líquidos, e nos 20 pontos do oponente, são outros +4,0 pontos líquidos. Esses valores de pontos líquidos são chamados de Pontos Esperados (EP), e cada situação de posição de campo tem um valor de EP correspondente.


Suponha que o ataque tenha uma 1ª descida para 10 jardas no meio-campo (um total de 50 jardas a ser percorrido). Esta situação vale +2,0 EP. Um ganho de 5 jardas configuraria uma 2º descida para 5 jardas do total de 45 jardas, o que corresponde a +2,1 EP. Portanto, esse ganho de 5 jardas nessa situação particular representa um ganho de +0,1 em PE. Esse ganho é chamado de pontos esperados adicionados (EPA). Da mesma forma, uma perda de 5 jardas na 1ª descida no meio-campo criaria uma 2ª descida para 15 jardas do total de 55 jardas do ataque. Essa situação vale +1,2 EP, representando uma diferença líquida de -0,8 EPA.

Gráfico de Expectativa de Pontos para 1ª descida

Por este gráfico criado por Burke, podemos concluir que quanto mais distante da endzone menor é a expectativa de pontos do time. Assim, quanto mais próximo da endzone mais expectativa de pontuar o time tem.


Mas sabemos que durante o jogo nem todos os pontos têm o mesmo valor. As equipes em vantagem sacrificam sua possibilidade de pontuar em troca de maior tempo de bola, o que no final os ajuda a vencer.


Então você me pergunta: mas que raios isso tem de influência para saber se um jogador é clutch ou não?!


Pois bem, aí que está (tapa na mesa do bar!), quanto mais favorável o time está na sua expectativa de pontos, menos crédito o jogador irá receber caso consiga pontuar.


Desta forma, podemos concluir que, quando as expectativas de pontuar do jogador são menores, maiores são as chances dele ser considerado clutch caso consiga converter os pontos.


Deve-se considerar ainda outros fatores externos, pois alguns QBs enfrentam defesas melhores do que outros. Também considere o número de jogadas em uma situação de pressão que um quarterback teve contra diferentes defesas. Jogar 97 partidas contra grandes defesas e 3 partidas contra defesas horríveis não é o mesmo que uma divisão 50/50.


O valor do clutch é definido como a média de pontos esperados adicionados por um quarterback em uma jogada de situação de pressão.


Em uma classificação feita em 2019, baseada apenas na métrica de Burke, temos como os 10 primeiros:

É incrível pensar que vários QBs considerados medianos ou ruins estejam entre os 10 primeiros da lista e que os melhores Qbs não estejam listados.


Porém tudo isso tem uma explicação, alguns QBs enfrentam mais situações de pressão em momento de jogo do que outros.


Assim Ahmed Cheema resolveu colocar mais um item a ser considerado no cálculo: Clutch Play Percentage, ou seja, a divisão entre os jogos totais e os jogos em que o jogador se encontrava em situação de pressão. Quanto maior o CP%, maior o valor de clutch do jogador, pois significa que ele enfrentou mais jogos com pressão.


Com isso a nova classificação ficaria:

Ainda assim existem dúvidas se apenas esses cálculos são suficientes para qualificar um QB como clutch.


Alguns questionamentos devem ser feitos e ainda não foram respondidos pelo cálculo estatístico:

  • O jogador corresponde à expectativa do contrato?

  • Ele é constante ou apenas um lance é suficiente?

  • As situações de pressão são criadas pelo próprio jogador que começa não jogando tão bem e no fim tenta melhorar?

  • Ganhar o título de MVP é suficiente para ser um clutch?

Várias questões devem ser consideradas e ainda tenho uma crítica particular à essa questão: se pensarmos que o jogador será considerado clutch quando é decisivo em situações de pressão que seu time está sofrendo, será que um QB com uma boa OL e uma ótima defesa poderá ser considerado clutch, haja vista que com todo o elenco em sintonia o time quase nunca (eu disse quase) passará por momentos de pressão? E ainda, o fato de jogadores medianos terem altos níveis de Clutch Value faz com que eles se tornem bons jogadores, ou apenas jogadores sortudos?


Fica o questionamento!!!!