• Daniela Germano - Criadora do GirlPowerNFL

O abuso de estimulantes e anabolizantes na NFL

Frequentemente existem notícias sobre suspensões de atletas por uso de anabolizantes. Mas como isso é controlado pela NFL?



O uso de esteróides anabolizantes e drogas para melhorar o desempenho é oficialmente proibido. Os jogadores são submetidos a duas políticas diversas de substâncias: política de abuso de substâncias e política de substâncias de aprimoramento de desempenho.


HISTÓRIA


A National Football League (NFL) começou a testar seus jogadores apenas na temporada de 1987 e então começou a emitir suspensões para os jogadores durante a temporada de 1989.

Um incidente divisor de águas ocorreu em 1992, quando o jogador do Las Vegas Raiders (na época Los Angeles Raiders), Lyle Alzado, faleceu de câncer no cérebro, que foi atribuído ao uso de esteróides anabolizantes; no entanto, os médicos de Alzado afirmaram que os esteróides anabolizantes não contribuíram para sua morte, apesar do jogador ter confirmado o uso dos estimulantes durante toda sua vida. Em entrevista o jogador disse:

"Comecei a tomar esteróides anabolizantes em 1969 e nunca mais parei. Era viciante, mentalmente viciante. Agora estou doente e com medo. Noventa por cento dos atletas que conheço estão nessa área. Não nascemos para pesar 300 libras ou saltar 30 pés. Mas o tempo todo em que estava tomando esteróides, sabia que eles estavam me fazendo jogar melhor. Tornei-me muito violento no campo e fora dele. Eu fiz coisas que só pessoas malucas fazem. Uma vez, um cara bateu no meu carro e eu dei uma surra nele. Agora olhe para mim. Meu cabelo sumiu, eu balanço quando ando e tenho que me segurar em alguém para me apoiar, e tenho dificuldade em me lembrar das coisas. Meu último desejo? Que ninguém mais morra assim. "


Vários outros casos surgiram no transcorrer dos anos:

  • Jim Haslett, técnico da NFL, afirmou que nos anos 80 metade dos jogadores da liga usavam algum tipo de droga;

  • Steve Courson vinculou um problema cardíaco que desenvolveu com o uso de esteróides.

Porém em 2003 o conhecido Escândalo Balco divulgou para ao mundo o uso excessivo de esteróides na liga. O governo dos EUA investigou a empresa Bay Area Laboratory Co-operative (BALCO) por acusações de fornecimento de esteróides anabolizantes a atletas profissionais.

Sede da empresa na Califórnia

Tudo se originou com uma ligação anônima, que depois foi revelada ser do técnico de atletismo Trevor Graham, para a Agência Antidoping dos EUA (USADA), e como prova o técnico teria entregue uma seringa contendo uma sustância apelidada de The Clear (tetraidrogestrinona ou THG ou hormônio de crescimento humano). A droga foi desenvolvida pela empresa BALCO em segredo, com o intuito de burlar os exames laboratoriais de detecção das drogas.

Fórmula química do THG

Com a descoberta da droga, o Laboratório Analítico Olímpico da UCLA desenvolveu um teste para detecção do agente e com o reexame das amostras de urinas dos jogadores, foi identificado que a maioria testou positivo para THG.


A política de substâncias proibidas da NFL começou em 1987 e é uma das mais antigas nos esportes profissionais. Nos últimos anos, quando muitos jogadores ignoraram a política, o diretor da NFLPA enviou uma carta a todos os jogadores da NFL que afirmava:


“Nos últimos anos, temos feito um esforço especial para educar e alertar os jogadores sobre os riscos envolvidos no uso de 'suplementos nutricionais'. Apesar desses esforços, vários jogadores foram suspensos, embora seu resultado positivo no teste pudesse ser devido ao uso de suplementos nutricionais. De acordo com a Política, você e somente você é responsável pelo que entra em seu corpo.

(...)

Portanto, se você tomar esses produtos, você o faz POR SUA PRÓPRIA CONTA E RISCO! O risco é de pelo menos uma suspensão de 4 jogos sem remuneração se uma substância proibida for detectada em seu sistema. Para sua própria saúde e sucesso na Liga, nós o encorajamos fortemente a evitar o uso de suplementos, ou pelo menos ser extremamente cuidadoso com o que você escolhe tomar. "

TESTAGEM


A temporada de testes de drogas da NFL começa no dia 20/04 de cada ano. A escolha é realizada através de um sorteio executado por um software, podendo o mesmo jogador ser sorteado mais de uma vez para realizar o teste. Os jogadores são notificados geralmente após o treino com uma nota em sua cadeira ao lado de seu armário de que eles devem fazer um teste de drogas.


Quando um atleta é selecionado para um teste de drogas, ele deve fazê-lo em até 4 horas do aviso prévio ou então a liga passará a impor multas e a possibilidade de suspensão por descumprimento. Se os atletas não completarem o teste na janela de 4 horas dada, a NFLPA irá tratá-lo como se tivesse testado positivo.


A primeira vez que o jogador não aparece para o teste ele será multado em US$25.000 dólares sob o seu contrato com a NFL e será colocado no programa de intervenção por causa razoável. Uma segunda vez resultará em uma multa de 2 semanas de pagamento, e uma terceira violação resultará em uma suspensão de 4 jogos sem pagamento.

Os testes são realizados pela coleta de urina e de sangue, porém os exames de sangue não são aceitos pela liga em dias de jogos. A amostra coletada é dividida em duas, chamadas de “A” e “B”. Quando a amostra “A” resulta positivamente para algum tipo de substância proibida, a amostra “B” deverá ser testada como contraprova.


Após todos os testes serem concluídos, o atleta e o gerente do clube são notificados dos resultados e, se o teste for positivo, qual será a punição por esta infração.


A temporada de testes de drogas termina quando a temporada termina, o que significa que até a semana do Super Bowl, qualquer jogador pode ser testado a qualquer momento.


Se um atleta for considerado positivo para o teste (PEDS), ele tem a opção de apelar do resultado. O apelo mais famoso dos últimos anos foi Richard Sherman em 2012, quando ele evitou uma suspensão de 4 jogos por provar que a amostra de urina foi armazenada incorretamente.


Os jogadores que possuem prescrição médica para alguma substância proibida podem solicitar uma “isenção de uso terapêutico”. Essas isenções são confidenciais assim como as substâncias para as quais são concedidas.


PUNIÇÕES


Os jogadores ou os times não recebem multas, mas sim o jogador deixa de receber seu salário nos 4 jogos de suspensão.


Quanto ao uso de drogas recreativas, como maconha, cocaína entre outras, os jogadores reprovados entram no Programa de Intervenção. Esse programa também se aplica para jogadores que tiverem problemas com a justiça, como prisões ou problemas psicológicos pelo abuso de substâncias.


O Programa tem 3 etapas:

  • Etapa 1: O jogador é avaliado por um médico e é criado um plano de tratamento. Este estágio dura até 90 dias. Se for concluído com sucesso, o jogador é dispensado. Se o jogador for reprovado ele vai para o estágio 2. A violação gerará aplicação de multa.

  • Etapa 2: Dura 24 meses ou duas temporadas inteiras e é semelhante à etapa 1. Porém as consequências são mais severas em caso de violação, como suspensão de 4 jogos. Caso reincidência a suspensão sobe para até 6 jogos.

  • Etapa 3: Também envolve um plano de tratamento, porém em caso de violação o jogador ficará proibido de jogar por 1 ano. Caso a violação seja pelo uso de maconha especificamente, o jogador ficará suspenso por 10 jogos apenas.

Caso o jogador fique suspenso por 1 ano, o comissário da NFL será o responsável por aceitar o jogador de volta para a liga. Os jogadores podem permanecer na etapa 3 pelo resto de suas carreiras, a menos que sejam liberados a critério médico.

O motivo pelo qual o público fica sabendo do abuso das substâncias apenas quando há suspensão do jogador, tem justificativa nas regras de confidencialidade. Inclusive, existem multas de US$ 500.000 dólares para quem violar a confidencialidade de um jogador quando se trata de informações sobre seu diagnóstico, tratamento, resultados de testes e participação no programa. A justificativa para a existência dessas regras é para que os jogadores e seus recordes, bem como das franquias e ligas, não fiquem manchados por escândalos envolvendo drogas e anabolizantes, porém isso acaba dificultando que a liga e os times sejam pressionados a evitar o uso dessas substâncias.


USO DESDE OS MAIS JOVENS


O uso de drogas para melhorar o desempenho também é utilizado em outros níveis do futebol, incluindo o college e o high school.


Os números mais recentes dos testes de drogas no futebol americano da National Collegiate Athletic Association (NCAA) mostram que 1% de todos os jogadores de futebol da NCAA falharam nos testes de drogas feitos em jogos, e 3% admitiram usar esteróides. Na NCAA, os jogadores estão sujeitos a testes aleatórios com 48 horas de antecedência, e também são testados aleatoriamente durante os jogos anuais. A NCAA normalmente realiza os testes em cerca de 20% dos jogadores de um time de futebol em um dia específico.


A lista de drogas proibidas pela NCAA de 2014-15 inclui as seguintes classes: estimulantes (exceto fenilefrina e pseudoefedrina , que são permitidas); agentes anabólicos; diuréticos e outros agentes de mascaramento; “ drogas de rua ” (o NCAA dá como exemplos heroína , maconha , tetrahidrocanabinol (THC) e canabinóides sintéticos); hormônios peptídicos e análogos; anti-estrogênios e agonistas beta-2 . Álcool e bloqueadores beta também são proibidos. A NCAA também proíbe "qualquer substância quimicamente relacionada a essas classes".


PROBLEMAS DE SAÚDE


Destaca-se que o uso de estimulantes e anabolizantes gera muitos problemas de saúde, podendo inclusive resultar morte do atleta. Problemas como:

  • aumento de pressão arterial;

  • doenças cardíacas como arritmia podendo gerar morte súbita;

  • danos ao fígado;

  • atrofia testicular;

  • problemas de fertilidade e desenvolvimento fetal; entre outros.

Além disso, o uso pode levar ao vício. Pesquisas já descobriram que alguns usuários de esteróides recorrem a outras drogas, como opioides, para reduzir os problemas de sono e irritabilidade causados ​​por esteróides. Pessoas que abusam de esteróides podem apresentar sintomas de abstinência, como alterações de humor, fadiga, inquietação, perda de apetite, problemas de sono, diminuição do desejo sexual, entre outros.


Portanto, apesar de aparentemente valer a pena o uso dessas substâncias para se atingir o objetivo num curto período, as consequências para a saúde física e mental são muito caras.