• Gabriel de Campos

Por que os esportes americanos não têm rebaixamento?


Essa é uma dúvida que muitas pessoas têm ao começar a acompanhar os esportes americanos. Qual o motivo de nenhuma das ligas não ter uma segunda divisão? Até a Major League Soccer não tem rebaixamento em seu campeonato, por que isso?

Nós, brasileiros principalmente, temos o futebol como maior referência esportiva. É um universo com várias galáxias que comunicam entre si. Temos a FIFA que controla tudo e todos, depois as confederações continentais, nacionais, estaduais e regionais. Todos estão interligados. Até mesmo os times de categoria de base estão envolvidos nesse enorme sistema. Tendemos a achar que a partir do momento em que um clube novo surge, ele deve ser inserido nesse sistema. Iniciando nas divisões menores para que aos poucos conquiste seu espaço no cenário futebolístico mundial.

Outros esportes têm esse mesmo sistema de trazer o time que está se destacando nas divisões menores, para uma maior e trazer o time que está em desvantagem com os melhores, para jogar em um nível semelhante ao dele.

No basquete nacional temos a NBB (Novo Basquete Brasil) como liga principal e a Liga Ouro como liga de acesso. No basquete espanhol tem a ACB (Associación de Clubs de Baloncesto) divisão maioral e a LEB Oro (Liga Espanhola de Basquetebol) para acesso. O vôlei brasileiro tem a Superliga e a Superliga B. São inúmeras ligas esportivas com esse estilo de estrutura.

O fato é que nada te impede de criar uma liga fora desse sistema. Se eu quiser criar uma liga de futebol profissional, eu não preciso pedir autorização da FIFA. Posso organizar um campeonato com as minhas regras, com os meus atletas e mesmo com isso dando certo (lucro), a FIFA não terá o direito de me cobrar por isso.

Em 1948, a Colômbia criou a Liga Pirata de Futebol. Uma liga de futebol sem reconhecimento da FIFA que tinha organização independente e ainda gerava muita receita. Eles realizaram seus campeonatos durante muitos anos, porém a FIFA - para mostrar que ainda têm muito poder - interferiu na seleção colombiana. Já que não podiam tirar proveito do campeonato nacional, proibiram os jogadores da Liga Pirata de defender sua nação em um campeonato de seleções organizado pela FIFA.

Di Stefano e Alfredo Castillo são jogadores que passaram pela Liga Pirata e tiveram sucesso.



Di Stéfano nos Millionarios (imagem eltiempo.com)

Usei esse exemplo para mostrar a forma que os americanos pensam em relação ao esporte.

A NBA, NFL, MLB, NHL e a MLS são as principais ligas, porém há outras que atuam profissionalmente no país e não tem relação com nenhuma das citadas.

No ano passado foi criada a AAF (Aliance of American Football). Eles deixaram claro que não queriam competir com a NFL, queriam ser apenas uma liga alternativa para cobrir o longo espaço de tempo que a NFL tem entre suas temporadas. Trouxeram mudanças em algumas regras para se diferenciar da NFL e tentaram conquistar seu espaço. Infelizmente os gastos foram maiores do que os ganhos e a liga teve que encerrar suas atividades antes mesmo de concluir o primeiro ano de torneio.

Há outros exemplos de ligas profissionais como a XFL (futebol americano), a ABA (basquete) nos anos 1960 e 70, a APBL (basquete) em 2010, a North American League (baseball) também em 2010.

No futebol, além da MLS, tem a USL. Elas não têm nenhum tipo de ligação, operam de forma independente, às vezes há uma ação em conjunto para promoção de imagem de ambas.

Isso também aconteceu com a NFL e a XFL; após a XFL anunciar sua suspensão por tempo indeterminado, algumas equipes da NFL contrataram jogadores que se destacaram na liga alternativa.

Eu cito no texto sobre a história do futebol americano, a desordem que eram as ligas profissionais no final do século XIX e início do século XX. Times entravam e saiam dos campeonatos ao longo da temporada, na maioria das vezes não houve um campeão.

Assim que surgiu uma liga profissional de baseball e uma de futebol americano que eram mais organizadas, elas viraram referência nacional e desmotivaram investidores que queriam iniciar uma nova competição. Essa desmotivação fez com que somente grupos bem estruturados financeiramente pudessem criar o seu campeonato.

Isso aconteceu com a NFL.

Em 1960 surgiu uma nova liga de futebol americano, a American Football League, que veio para competir com a NFL. Com o passar do tempo perceberam que era muito mais lucrativo unir ambas em uma só ao invés de ficar disputando por maior audiência.



Commissário da NFL, Pete Rozelle simbolizando a união da NFL com a AFL (art.com)


Liga de desenvolvimento


Outro diferencial é o das ligas de desenvolvimento de jogadores.

A NBA G League, antes chamada de D-League (NBA Development League), é uma extensão da NBA com times diretamente ligados com a mesma. Assim como o Barcelona ou o Real Madrid tem o seu time B no futebol, algumas franquias da NBA também possuem o seu.

A G League é destinada para desenvolver jogadores de basquete, revelando atletas para o time principal mas também trazendo jogadores que não estão tendo grande rendimento na NBA para aprimorar seus fundamentos. Ao invés de rebaixar a equipe, o jogador é rebaixado para se desenvolver atleticamente.

A MLB também tem seus “times B”. Muitos jogadores que saem do ensino médio ou do draft vão jogar em times semi-profissionais antes de ingressar no principal.

Quando Michael Jordan se aposentou do basquete para jogar baseball, ele foi para um time de base afiliado ao Chicago White Sox.

Essas diferenças trazem uma exclusividade para os esportes americanos mantendo as principais ligas (NBA, NFL e MLB) em um nível muito acima do resto do mundo. Tanto é que os campeões se consideram World Champions, campeões do mundo.



Por Gabriel de Campos

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