• Daniela Germano - Criadora do GirlPowerNFL

Ausência de quarterbacks reservas e porque as franquias dependem tanto de seus titulares

Se você está tendo contato com o mundo do Futebol Americano apenas agora já sabe que o Quarterback é um dos principais (se não principal) jogador para o time.

Não que ele seja sempre decisivo, pois não podemos desconsiderar o trabalho de todas as outras posições, mas é inegável que um bom QB (nem precisa ser ótimo ou G.O.A.T.) traz uma segurança e confiança para todo o seu time.


Existem vários estilos de quarterback hoje em dia na NFL: há o quarterback scrambler, que é o quarterback que corre bem pela linha defensiva adversária, como um running back; o short throw, que arremessa para poucas jardas, criando um jogo rápido e com poucas interceptações; o long throws, que são especializados em passes para muitas jardas, tem um alto número de interceptações, jardas e touchdowns; o All Rounder, que é como o "jack of all trades": sabe fazer tudo, mas não é excepcional em nada.


Porém não será dos tipos de QBs que iremos falar, e sim de algo muito mais complexo: O QUANTO OS TIMES DAS NFL DEPENDEM DE SEUS QBS TITULARES!!!


Os quarterbacks titulares ou QB 1 (first quarterbacks) estão tendo uma temporada bem difícil esse ano. Nesta temporada de 2020 vimos com maior frequência times precisando acionar seus QBs reservas, vejamos:

  • Bears - Nick Foles

  • Dolphins - Tua Tagovailoa

  • Patriots - Brian Hoyer e Jarrett Stidham

  • Cowboys - Andy Dalton e Ben DiNucci

  • Broncos - Jeff Driskel

  • Jets - Joe Flacco

  • 49Ers - Nick Mullens

  • Chargers - Justin Herbert

  • Washington - Kyle Allen

Isso que ainda estamos no meio da temporada (ço corro!!!)


A lista de times da NFL que sofrem com lesões importantes under center e precisam confiar nos quarterbacks reservas é gigante.


Alguns estudos apontam que nas últimas temporadas (desde 2014) em torno de 90% das franquias tiveram que utilizar seus segundos QBs de forma mais constante, ou seja, o uso de reservas é mais frequente do que imaginamos nessa posição.


Porém pela lista acima temos que separar os times em duas categorias de uso do QB reserva: escolha e necessidade.


Como assim? Pois bem. Tivemos times que estão jogando com seu QB reserva por questões de qualidade de jogo dos titulares, como ocorreu com Bears e Dolphins. Tais times escolheram jogar com seu segundo quarterback, pois seus titulares não estavam entregando o que prometeram.

No que tange ao Bears, o time não está num nível de Super Bowl, mas encontra-se melhor do que antes com o Trubisky, pena que precisou tanto tempo e apenas com a contratação de um QB reserva de peso para que o time acordasse para a realidade sobre seu QB1.

Lógico que os números dos QBs do Miami ainda não são tão comparáveis, considerando a quantidade de jogos entre os atletas. Ademais, Tua é uma incógnita ainda, pode ser do tipo que promete mas acaba por decepcionar, a exemplo do Trubisky, ou poderá entregar exatamente o que o Dolphins encomendou e muito mais, como Joe Burrow no Bengals.


Porém a questão problemática maior não está situada nos times que optaram por usar seus QBs reservas, afinal como dito, foi uma vontade, de forma que o time poderia continuar com seu QB titular, em que pese sua qualidade duvidável.


Contudo a principal dificuldade está sendo nos times pegos de surpresa, que tiveram que usar seus QBs reservas por problemas de saúde dos titulares, seja lesão ou afastamento por COVID-19.


No Patriots tivemos o afastamento do Cam Newton por COVID-19 e com isso o time teve que utilizar o reserva Brian Hoyer, que particularmente teve um desempenho deplorável, e consequentemente usaram Jarrett Stidham. Os números do time e dos jogadores não mentem, vejamos:

Consideremos ainda que nos jogos em que o Cam Newton não jogou ou jogou parcialmente, o Patriots perdeu todos os jogos por um placar elástico (Chiefs 26-10 Patriots; e 49ers 33-6 Patriots), situação que o time não vivia a muitos anos.


Apesar do seu QB1 ter voltado, o time ainda encontra-se sem ritmo, situação que aparentemente é temporária para que a franquia volte aos resultados vitoriosos apresentados nos primeiros jogos.


Sabemos que o Patriots não é refém do seu QB titular de hoje. Na Era Tom Brady isso também acontecia e mesmo tendo o Garoppolo como reserva, o time não tinha bom desempenho quando ausente seu líder ofensivo.


Outro time com histórico de pior aproveitamento entre as equipes com no mínimo cinco jogos dos reservas, é do Dallas Cowboys. Porém essa é a primeira vez, desde a contratação de Dak Prescott, que o time tem que acionar seu backup.

Se analisarmos friamente, o Cowboys é o time que tem (ou tinha) o melhor QB reserva, Andy Dalton, que saiu do Bengals onde atuava como QB titular. Porém é notória a dificuldade da franquia com a saída de Dak.


Nos primeiros jogos sob a liderança da Dak o time apresentou dificuldades, porém o QB tinha números incríveis, demostrando que a fragilidade do time residia em outros departamentos, como no caso da linha defensiva, tendo resultados apertados, ainda que com derrotas.


Já com a lesão do QB1, o time encontra-se em uma derrogada avassaladora, com resultados que não combinam em nada com o tamanho do time, em destaque para o jogo contra o Washington Football Team, em que a única coisa que funcionou no Cowboys foi o Special Team, pontuando apenas com 1 Field Goal.


Outro time com problemas sérios com seu backup é o San Francisco 49ers.

Garoppolo está inconstante com sua lesão no tornozelo e com isso Mullens está aparecendo com mais frequência. Comparativamente, o time sentiu a saída do seu QB titular, porém seus números nas derrotas não são tão discrepantes, fazendo com que atualmente o time tenha o backup mais eficiente de todos os acionados até o momento.


Ademais, devemos considerar que o time encontra com muitos jogadores no departamento médico, que faz com que toda a estrutura consolidada na temporada passada, que levou o time para o SB, sofra um colapso e a franquia tenha que se realinhar a cada jogo.


Em análise o Broncos, que já não tem bons números com o Drew Lock.

Conforme a estudo da tabela e dos números, aparentemente Driskel tem números iguais ou melhores que o QB1 da franquia, contudo a influência da mudança da liderança no time reflete nas vitórias ou derrotas que o jogador contabiliza.


Driskel tem 100% de aproveitamento nas derrotas das 2 vezes que jogou como titular, enquanto que Lock, apesar de números equivalentes ao seu reserva, tem um aproveitamento maior, com 2 derrotas e 2 vitórias no comando do time de Denver.


O Jets por sua vez está na campanha #MISSAOSUNSHINE. Piadas a parte, sabemos que o time já não vem muito bem e não é de hoje, contudo a franquia tem o que chamamos de backup de elite.


Joe Flacco é veterano e já está em fase de aposentadoria, e seu futuro, caso ainda permaneça na NFL será seguir para QB3 do Jets com a contratação de Trevor Lawrence, enquanto o INSS não aprova sua aposentadoria por invalidez (rsrsrs).


O Washington, por sua vez, apresenta uma certa constância nos números do seus QBs, e os problemas do time estão em outras posições como na OL, que tem uma ineficiência impar em proteger seus QBs, somando atualmente 20 sacks em seus QBs, o que torna o trabalho ainda mais difícil para dos líderes do ataque.

Por fim, mas não menos importante deixei o Chargers para ser analisado.


Antes de vermos os números, devemos considerar que, em que pese o Justin Herbert ter entrado para substituir Taylor por uma senhora cagada feita pelo departamento médico do time (caso você não se lembre, o jogador teve seu pulmão perfurado acidentalmente), o calouro se manteve pelo seu desempenho excepcional nos primeiros jogos que atuou.

Lógico que com apenas 1 jogo, fica difícil de se comparar Taylor com Herbert, contudo a surpresa de se ter um QB reserva com qualidade de titular, faz com que o Chargers seja um time competitivo na AFC Oeste.


Com essa análise, fica claro que o backup participa mais do que se espera. 


Sei que você já deve estar cansado de tanto ler, mas a pergunta que não quer calar é: Falta investimento, planejamento ou algo do tipo na contratação dos quarterbacks reservas?


Para responder essa pergunta temos que ver como está a oferta de QBs no college em 2020.

Existem pelo menos 11 QBs no college com nível suficiente para serem escolhidos no próximo Draft, dentre eles Trevor Lawrence, Justin Fields, Ian Book, D'Eriq King, Zach Wilson, Kyle Trask, Brock Purdy, Tanner Morgan, Sam Ehlinger Kellen Mond e KJ Costello. Sem contar os que foram draftados neste ano e que ainda não estão jogando como titulares (Jalen Hurts e Jordan Love).


Mas será que ser um dos melhores QBs do college é suficiente para ser draftado?


Isso é tema para um próximo texto, porém é sabido que quando o time já tem um QB titular bom e escolhe um QB rookie, o General Managere o Head Coach serão extensamente criticados pelos torcedores e pelos comentaristas, como ocorreu com o Green Bay Packers e com Philadelphia Eagles.


Ademais, fora os jogadores do college, o mercado de quarterbacks da NFL fica cada vez mais escasso, tendo em vista que os nomes que restam não inspiram muita confiança para quem for os contratar.


Com essa dificuldade de contratação de QBs de qualidade para que o time chegue minimamente nos playoffs, há o reflexo econômico nos contratos fazendo com que o comércio desses jogadores se torne um leilão.


Observemos a situação atual do Cowboys que ainda tem Dak Prescott sem renovação. Ainda que se considere a lesão, Dak é de longe o melhor QB da NFC Leste, e quiçá da primeira metade da temporada, contudo o time de Dallas está perigando de perdê-lo. Porém sem Dak, Jerry Jones não tem nada.


Outro ponto de análise diz respeito ao esforço do time em manter seus reservas. Vejamos Jimmy Garoppolo que viveu 3 anos à sombra do Tom Brady no Patriots, sem ganhar muitas oportunidades de jogo. Saiu em 2017 para o 49ers e agora como titular demonstra qualidade, tendo levado seu time ao Super Bowl do ano passado.


Lembremos ainda do Eagles com o Super Bowl LII, que perdeu seu QB1, Carson Wentz, na semana 14, com uma lesão no joelho e jogou os playoffs com seu backup à época, Nick Foles, levando o time à conquista do seu primeiro título e ganhando o prêmio de MVP do SB.


Talvez com a situação atual de tantos QBs titulares saindo de campo e QBs reservas sendo acionados, faça com que os times pensem mais na necessidade não só em ter um QB titular de qualidade bem como na relevância de um backup também de qualidade.


Deve-se considerar ainda a importância do time se ajustar ao estilo de jogo do QB reserva quando do seu acionamento ou ter um QB reserva com estilo parecido com o do titular. Podemos comparar a substituição do QB como trocar um tênis (confortável, de fácil uso e com que você está acostumado) por um salto alto/sapato social (desconfortável, apertado e novidade) em que você tem que realinhar seu caminhar, sua postura e suas roupas, reconfigurando seu cérebro para que se adapte à nova condição.

O segredo para um time ser campeão na NFL no que tange aos quarterbacks vai além de somente encontrar um nome a longo prazo, é necessário um equilíbrio entre o QB titular e o reserva, pois na falta do primeiro, seu time deverá ter um jogador digno de titularidade (com técnica e liderança), caso não pretenda que toda a temporada vá por água abaixo. 

Cabe observar ainda que, diferentemente de outras posições, o quarterback não tem muitas substituições de modo a manter minimamente a qualidade e desempenho do time, ao contrário do que ocorre com running backs e wide receivers.


Conclui-se, no quesito QB, que mais vale prevenir do que remediar, pois as consequências são graves para as franquias que ficam reféns de seus quarterbacks titulares, já que todos os jogos são vitais numa temporada que se busca minimamente participar dos playoffs.