A Uma Jarda Do Desastre: Super Bowl 49

Atualizado: Mai 30


O Super Bowl XLIX (49) foi marcado pela jogada infame na linha de uma jarda, onde Russell Wilson, o quarterback dos Seahawks, foi interceptado por Malcom Butler, selando a vitória dos Patriots e o quarto anel de Tom Brady. Desde especialistas até “trolls” da internet, todos ficaram se questionando o porquê de a jogada chamada ter sido um passe e não uma corrida para Marshawn Lynch, que tinha média de 4,25 jardas/corrida no jogo e era conhecido por sua luta por ganhos após o primeiro contato. Para analisarmos o que aconteceu, a forma mais precisa de entendimento será a divisão de partes envolvidas na jogada. Conclusões serão tomadas somente ao final.

1. Russell Wilson: Vindo de uma boa temporada (2014/2015) e jogadas espetaculares de improviso, o atleta revelado pela universidade de Winsconsin foi o lançador da bola interceptada. É notável que Wilson não fez nenhum audible¹ para mudar a jogada para um passe, demonstrando que a chamada foi do treinador do time de Seattle, Pete Carroll. Ao se posicionarem na formação combinada, Russell tem em sua visão uma defesa com sete homens na linha de scrimmage, três jogadores de secundária pressionando os recebedores e apenas um linebacker o espionando. Achamos necessário pontuar que o rush de New England pressionou com cinco desses sete jogadores alinhados, visto que um estava marcando Lynch e o outro o tight end, Luke Wilson (Veja imagem 1.1). Com isso em mente, o quaterback, que tinha um grande corredor de potência à sua esquerda no backfield e uma linha relativamente confiável a sua direita, teve a opção de mudar a jogada para uma corrida pelo lado destro do ataque. Como sabemos, isso não ocorreu, e seu passe acabou não tendo o final desejado.


2. Marshawn Lynch: Com sua reputação de “besta”, sempre com o intuito de conseguir o máximo ganho a cada toque na bola, utilizando de sua grande massa, sua frustração com a escolha foi compreensível. Obviamente, não podemos afirmar que ele cruzaria a linha, mas é difícil de acreditar que ele não conseguiria uma única jarda em três tentativas possíveis (Na jogada, Seattle tinha 27 segundos, um tempo a pedir, estava em sua segunda descida e perdia por 28 a 24).

3. Pete Carroll: Com muita confiança em sua escolha de fazer Wilson o titular da franquia em sua temporada de calouro (2012), mesmo com a contratação de Matt Flynn na intertemporada, Carroll surpreendeu a todos com a decisão de um slant rápido para Ricardo Lockette. Ele sabia que o time de Foxborough teria uma postura agressiva contra uma possível corrida e decidiu pelo passe veloz para surpreender Bill Belichick, o técnico dos Patriots. A antecipação da defesa, que claramente se posicionava no homem-a-homem, foi uma jogada individual excelente do próximo e, último analisado, Malcom Butler.

4. Malcom Butler: O defensor não “draftado” e contratado pelos Pats em 2014 tinha sido atribuído a responsabilidade da marcação de Lockette. Com o posicionamento do recebedor número #83 duas jardas atrás da linha de scrimmage, Butler obteve certa profundidade em sua colocação pré-snap. Seu maior mérito está no ágil reconhecimento da jogada. Ao ver a tentativa de bloqueio e anulação por Kearse em seu companheiro, imediatamente reagiu ao movimento de corte rápido ao meio do recebedor. Além do mais, ao angular-se para cobrir o passe, sua visão possibilitava ver Russel Wilson e seus movimentos. A partir disso, conseguiu antecipar o passe e fazer a jogada definitiva do título.

É claro que existem muitas variáveis que não foram citadas anteriormente, mas acreditamos que as principais estejam aqui. Como já dissemos, não é possível saber o que ocorreria se a jogada fosse outra, mas podemos tirar conclusões daquilo que conhecemos.

Além do fato de que Lynch era considerado um dos melhores corredores da liga, Wilson também era muito bem utilizado em read options. A falta de envolvimento do corredor na jogada é o que menos parece fazer sentido. Um rápido play action faria com que, no mínimo o defensor responsável por marcar o camisa #24 ficasse em dúvida, além de possivelmente alertar outros marcadores para uma jogada pelo meio, e não um passe. Outro fato que vale ressaltar é a escolha do recebedor para fazer a rota. Um jogador de 1,88m não é o ideal para uma rota que pede agilidade, ao menos que seja Julio Jones ou Michael Thomas. Entendemos a importância de um corpo grande para segurar a bola em uma jogada que prevê impacto, porém, é fácil perceber como Butler, que nunca foi dos defensores mais rápidos, teve certa facilidade em acompanhar e antecipar a jogada.

Russell poderia sim ter mudado a jogada, mas devemos pensar em tudo que envolve tal decisão. Já falamos sobre o posicionamento agressivo de New England contra a corrida, e isso favorece jogadas rápidas. Com todos os defensores, com exceção de Hightower, claramente no mano-a-mano, um passe rápido não parece ser a pior das ideias. Além do passe não ter sido totalmente correto, sabemos como a história do esporte pune aqueles que erram, mesmo tendo feito o que, antes do desfecho, parece ser certo.

Podemos falar que Carroll acertou então? Bem, não. No final, a jogada vai ser sempre lembrada como um fiasco e todos continuarão perguntando: Por que não correu? Foi um risco assumido pelo treinador, achando que conseguiria melhor resultado. As únicas considerações que deixamos aqui são aquelas que não parecem ser disseminadas pelos meios midiáticos mais populares do mundo, com a frequência que nos parece necessária ao falar do tal lance. Wilson poderia ter lançado um passe mais preciso e mais em direção ao peito do recebedor. Pete Carroll chamou a jogada que parecia correta, se considerarmos o que vemos do posicionamento defensivo. Os méritos de Butler são maiores que os deméritos do treinador e QB dos Seahawks.

Nenhum dos fatos que deixamos no parágrafo anterior eximem Carroll da culpa do que ocorreu. Ele é pago para tomar as decisões difíceis também e, mesmo fazendo aquilo que no papel não era absurdo, obteve um resultado ruim. Lynch deveria ter participado da jogada, isso é claro. E o fato de ele não ter tido nenhuma relação com o desenlace do ocorrido, nos faz questionar o que teria sido apresentado caso o corredor obcecado por Skittles tivesse tido maior influência no lance da interceptação.